18 de janeiro de 2017

Por que empreender “is the new black”? , por Bruno Montejorge

(spoiler: vai muito além da crise)

empreender

Acredite: agir como um empreendedor será cada vez mais importante na sua vida profissional e pessoal. E isso não tem nada a ver com abrir seu próprio negócio.

Falar sobre empreender em tempos de crise soa cliché, concordo. Confesso que me perguntei se faria sentido com tanta informação já publicada. A razão da opção por escrever está no parágrafo acima.

Empreender é cliché na crise pois o desemprego em alta promove a tríade

tempo livre forçado + mercado temporariamente encolhido + uma graninha da rescisão

Esta equação costuma ser o combustível da fórmula seguinte:

“enfim fazer o que gosto” + “chega de chefe” + “chega de salário, hora de ficar rico”.

Que leva ao momento da redenção: vou me tornar um EMPREENDEDOR!

O problema do estereótipo acima é que ele faz com que aqueles que não tem a sua empresa não vejam razão em entender como funciona o pensar e agir do espírito empreendedor.

Acredito que este modus vivendi está para ficar. E divido as razões em 3 pontos:

  1. O mundo está perdido.

Não, não sou um fanático religioso a comentar sobre “a juventude de hoje”. Vejo o mundo perdido de forma literal: não sabe para que lado seguir. Sem GPS, nem Wifi, nem 4G.

Líderes. Nos faltam grandes líderes.

Se na primeira metade do século passado tivemos Gandhi, Mandela, Luther King, Churchill, quem temos hoje? Youtubers?

Sinto vivermos hoje um hiato de líderes capazes de efetivamente nos levarem adiante, como referências que indicam a direção, empolgantes, fazendo termos vontade de seguir uma grande visão de mundo, de país, de cidade, de alguma coisa!

E a que isso se deve? Adoraria ter uma resposta definitiva. Apenas desconfio que possa ter a ver com a dificuldade de se tornar grande sem “ceder a pressões”, das mais variadas formas. E quando se cede a uma pressão para subir, deixam-se arestas. Muitas arestas, surgem as fraquezas.

  1. O mundo corporativo está perdido.

Se nos anos 90 a onda eram os CEOs engenheiros porque sabiam “equacionar os problemas da organização”, e os anos 2000 trouxeram o design para dentro das empresas (embora muitas delas ainda estejam pensando nisso…) para aplicar o “design thinking” e sua forma de promover a entrega de uma solução mais adequada ao cliente, nesta década o que se fala muito mas nada se entende é o tal do digital.

É tudo muito novo. Muito diferente. E ninguém tem a menor ideia do rumo que tudo isso vai tomar. Tomemos o Marketing como exemplo: não existe um Philip Kotler e seus 4Ps (ou pior, existem novas versões bizarras). Os CMOs atuais começaram suas carreiras na época do fax. Se a empresa já mandou este CMO embora e chamou um “xóven” de 28 anos para liderar o marketing por que é um “nativo digital” (argh!), pior ainda, pois dificilmente sabe liderar pessoas, detalhe considerável para uma cadeira de liderança.

Gerentes vivem diariamente o paradoxo da escolha, onde há tanta ferramenta ofertada que cria uma paralisia. Analistas são pagos para prepararem relatórios cheios de dados que simplesmente não conseguem ser transformados em ações coerentes. E mesmo quando dá certo, a sensação que dá é que na verdade ninguém sabe ao certo como deu certo.

Todos burros? Não! “Apenas” um aumento exponencial da complexidade de conhecimentos necessários, da velocidade exigida de resposta, e das eternas pressões por redução de custo que forçam o constante enxugamento das estruturas, acreditando que dá para fazer o mesmo com menos gente, afinal “temos este software incrível…”.

Mas a meu ver a sentença final de que as empresas estão perdidas está nas descrições de cargos postados nos sites de emprego. Seguindo no exemplo do Marketing, todo mundo quer um “digital specialist”, um “UX designer”, um “Head of Branding”. Em RH agora buscam-se “Talent Acquisition Managers”. Os títulos são cheios de estilo. As descrições da função dão medo. Na maioria dos casos seria mais honesto dizer “Precisamos de alguém que nos ajude a entender como diabos fazer para que nossas ações de marketing e vendas minimamente acompanhem as mudanças gigantes, rápidas e constantes na relação entre consumidores, marcas e produtos. Daremos todo o apoio, mas não sabemos ao certo o que precisa ser feito.”.

  1. As pessoas estão perdidas.

A esta altura temos concordado que o sentido de perdido é o literal.

Se nas gerações que nos antecederam o primeiro sinal de sucesso era um núcleo familiar indissociável e o segundo era uma carreira profissional sólida capaz de gerar dividendos por toda a vida, hoje as pessoas buscam um sentido maior, um propósito. Mesmo que isso desafie os códigos implícitos de vida de sucesso ainda presentes.

O difícil é que esta busca nem sempre é tão tangível. Trata-se (de novo!) de algo diferente, sem uma direção definida. Algo que ainda não está claro, mas que precisa acontecer. Não dá para voltar atrás.

A esta altura você está certo de que sou um tremendo pessimista.

Não, pelo contrário! Por que é aqui que mostro minha fé no EMPREENDER.

Por que pensar como um empreendedor vai muito além de abrir sua firma.

Significa seguir um propósito; desafiar o “não pode”; fazer com paixão; encontrar novas soluções para antigos problemas; tomar riscos; não desanimar depois um revés; convencer os outros de sua visão; não se contentar; acreditar que tudo pode ser sempre melhorado.

Empreender, como Mr. Google disse lá no começo, é realizar. Realizar uma tarefa difícil. Tentar.

Como cidadãos, precisamos realizar mais pela nossa cidade, nosso país, nosso mundo. Inevitavelmente emergirão desse desejo novos grandes líderes.

Como profissionais, ajudaremos as empresas nas quais trabalhamos a encontrarem seu verdadeiro propósito e se transformarem em agentes de efetiva contribuição para a sociedade em que atuam. Que empresa não gostaria de ter alguém que a convença de que vive a vida desta forma?

Finalmente, como indivíduos, buscaremos nosso verdadeiro propósito. E quanto mais claro o propósito individual estiver, melhores cidadãos seremos. Melhores profissionais seremos. Melhores pessoas seremos.

Portanto, se vale um conselho, desenvolva seu espírito empreendedor. Existem muitas formas. Entenda a essência do pensar e do agir como empreendedor. Está na moda, é chique e você será recompensado por isso.

E acima de tudo, contribuirá de forma decisiva para que o mundo se (re)encontre.

COMPARTILHE
Share on LinkedInShare on FacebookGoogle+Tweet about this on Twitter