6 de setembro de 2016

Pokémon Go até aonde?, por Rucelmar Reis

Como um jogo de apelo infantil virou febre global e está provocando uma transformação social na forma de interação de marcas, produtos e serviços

As cidades estão sendo invadidas por seres estranhos que perambulam pelas ruas, vivendo em uma realidade paralela. Em um parque, um grupo de “zumbis” hipnotizados por seus próprios celulares passam pelas pessoas sem notar a presença de ninguém. Todos determinados a capturar animais de outro mundo.

O que parece um roteiro hollywoodiano está acontecendo agora em muitos países onde o jogo Pokémon Go foi lançado. Mais de 100 milhões de pessoas no mundo já baixaram o aplicativo. Uma febre. Os milhares caçadores de Pokémons digladiam-se em locais públicos para capturar esses pequenos seres virtuais. Como pode um jogo com personagens infantis se transformar nessa loucura mundial?

Sabemos que o trade do entretenimento se vale de uma fórmula simples: a fantasia. Algo que nos tira do dia a dia e nos transporta para outra realidade. E cada vez mais a tecnologia está nos transportando para outra realidade, seja virtual ou modificada, a que chamamos de Realidade Aumentada. A aplicabilidade disso é imensa e, com certeza, vai mudar a sua vida.

Então, essa comoção mundial no lançamento do jogo Pokémon Go é por causa dessa tecnologia? Não. Não é só isso. Em qualquer jogo em rede, todos querem ter o reconhecimento coletivo e estar entre os melhores. Com o Pokémon Go não é diferente.

Agora imagine poder fazer isso em um cenário real, vitaminado com novos componentes virtuais divertidos. É uma mistura de realidade e fantasia, tudo ao mesmo tempo. O tabuleiro do jogo pode acontecer em qualquer lugar: na rua, no escritório, em um estádio de futebol… Para jogar, basta um telefone celular. É o fim da imagem do jogador solitário, preso entre quatro paredes, ou de cenas de filmes futuristas mostrando que seremos cérebros enormes em corpos atrofiados. Esqueça isso! As pessoas estão é nas ruas, interagindo neste novo mundo.

A popularização tão rápida do jogo gerou curiosidade e bastante exposição na mídia e nas redes sociais. Vemos todo dia casos de pessoas criativas utilizando artifícios divertidos para ter um melhor rendimento no jogo, usando drones ou até animais de estimação para os ajudar. Também temos notícia de pessoas se machucando ou se expondo ao perigo por estarem imersas e distraídas com o jogo.

Essa reação das pessoas mostra como vamos interagir com o mundo e como será o próximo passo da socialização. Estamos vendo o início de uma sociedade diferente, com o virtual e a realidade andando cada vez mais juntos. Se antes sabíamos diferenciar o digital e o analógico, e hoje isso já não faz mais sentido, em um futuro próximo podemos apostar que não saberemos diferenciar o virtual da realidade.

Não se trata apenas de um novo jogo, mas de como nos relacionaremos a partir de agora. O Facebook já anunciou um grande investimento na Realidade Aumentada, e quem já viu esse novo ambiente garante que vamos mudar totalmente a interação nas redes sociais. Seria o mundo real vivido na irrealidade da virtualidade ou seria a virtualidade sendo vivida no mundo real? Pouco importa. A realidade como a conhecemos hoje nunca mais será a mesma.

Mesmo aqueles que já tomaram a iniciativa de estudar e antecipar comportamentos, criaram seus laboratórios de inovação e desenvolveram novas tecnologias de consumo já perceberam que ainda é muito cedo para conhecer o impacto final dessa socialização tecnológica que está acontecendo. Mas não será pouca coisa. Imagine o poder que alguém terá ao dominar a técnica de transformar nossa própria realidade.

O marketing também será bastante afetado com esse novo comportamento. Mudará a forma como compramos as coisas, como escolhemos produtos e até como utilizamos os produtos na nossa casa. Sairá na frente quem for capaz de entender que suas estratégias, produtos, serviços e a forma de se relacionar com os consumidores não precisam mais ser apenas compostos de elementos reais. Você imaginaria locais de votação como existem nos Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório, usando Pokémons para atrair eleitores? E que tal a criação de um serviço moto-Pokémon lançado no Brasil para caçadores dos bichinhos? Neste cenário, Pokémon Go é apenas um aperitivo, mas um laboratório sem fim para testar o que virá por aí em termos de comportamento social.

 

*Rucelmar Reis, COO da Mirum Agency e diretor da ADVB-PR.

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